C.

Dou por mim a preparar-me para uma coisa que não tem preparação possível. Dou comigo a ver a cassete das nossas vidas. A recordar momentos passados pela última vez. Como o tempo nos foge das mãos… Como a vida é breve e nos deixa reduzidos a um vazio total. Vazio de perder alguém que nos quer mais que a vida. Nostalgia da infância? Sim, entendo-a bem. Foi ao teu lado. Tudo foi do teu lado. Mesmo sem ainda te ter perdido, começo a sentir a dor de perder alguém. Esta proximidade com a morte deixa a minha alma de luto. Estou como uma pedra. Sem conseguir encarar os factos, sem querer aceitá-los. Retornar à minha infância é trazê-la para aqui hoje. É estar a chamar-te. É estar a pedir-te que me faças uma carcaça com manteiga ou ovos mexidos com arroz. É ir a Belém e voltar, numa viagem que parece não ter fim. Fim, era o que não deveria existir para ti. Porque o teu coração é de mãe, e o meu é de tua filha. E esse amor não pode ter fim. Não tem. Não vou permiti-lo nunca. Lembro-me de todas as vezes que chorei a ver o video do teu casamento. Sempre desejei um amor verdadeiro, duradouro, até ao fim de duas vidas que no fundo, são uma só. A cada memória uma lágrima, a cada lágrima uma memória… Pudesse eu partilhá-las contigo. Mas não posso. Quero que esse sorriso lindo de luta que vi, se mantenha até ao resto dos teus dias. Porque mais do que tentar sobreviver, tu viveste. E há pouca gente a fazê-lo. Seria bom se tudo não passasse de um sonho e eu estivesse neste preciso momento a acordar.
A vida quis testar-te, colocando-te numa das batalhas mais temíveis dos tempos que correm. Resta-me apenas a certeza de que não desististe dela até ao dia em que te retiraram do campo de batalha. A mim, resta-me apenas a nostalgia da infância, a certeza de que sem ti, eu não seria metade do que sou hoje.

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4 respostas a C.

  1. Por momentos quis clicar em gosto, mas não é um tema de que se possa gostar. Quero simplesmente dizer-lhe as suas palavras me tocaram, me fizeram pensar no valor que têm aqueles que fazem de nós o que somos. Sou filha e sou mãe. E sei que sem esses papeis não sou, simplesmente. Obrigada pelo seu desabafo.

    • Quero antes de mais agradecer o seu comentário e dizer-lhe que tem um espaço cibernético muito interessante. O último post, especificamente, ultrapassa a barreira do interessante. Não duvido que seja uma experiência fantástica, essa de embarcar num mundo desconhecido e de lidar com todo o tipo de pessoas e culturas. Quanto aqui ao meu desabafo, quero apenas dizer que por vezes temos a sorte de ter mais do que uma mãe. Eu felizmente tive três. E duas delas foram a minha avó e a minha tia. Muitas das vezes, esse amor é também de mãe e filha. E sem duvida que, tal como referiu, fazem parte daquilo que hoje somos.

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