Lost.

E aqui estou eu, sentada no chão do meu quarto. Fechada dentro destas quatro paredes onde tento descobrir os segredos do mundo. Percorro agora uma estrada comprida sem conseguir avistar o seu fim. A única coisa que vejo bem ao longe, é o horizonte. Vejo o sol quente junto às nuvens num fim de tarde, bem longe de mim. Tão quente como este asfalto que piso com os pés descalços. Queimo-me, mas mesmo assim não páro. Antes pelo contrário. Ando mais depressa para que o sofrimento não seja tão doloroso. Como quando estamos na praia e sentimos a areia a escaldar. Começamos a correr para rapidamente chegarmos ao chão. Comecei então a correr. Queria que este queimar fosse mais suave, mais suportável. Mas tenho outro objectivo. Quero percorrer esta estrada. Quero chegar ao fim com cicatrizes, com os pés queimados. Quero suar com os raios que o sol sentiu necessidade de me mandar. Quero ser só eu e a estrada. Eu e o asfalto. Eu e a dor. Quero falar com ela. Compreendê-la. Suavizá-la. Quero chegar ao fim e encontrar-te. Quero sentir o horizonte, não apenas avistá-lo. E continuo a correr ingenuamente com a esperança de chegar a ti. De puder ver de perto a mesma beleza que me transmites de longe. Puder tocar-te e sentir as tuas mãos macias, ou até mesmo enrugadas (quem sabe). Quero olhar-te de perto e perguntar-te se eras capaz de percorrer a mesma estrada, queimando os pés no asfalto e levando com os raios calorosos do sol. Por mim. Assim como eu a percorro por ti.

Não quero que a noite chegue. Quero que demore a chegar. Preciso de chegar a ti antes do anoitecer. Preciso de alcançar-te rapidamente para que não caia na amargura da noite que me faz pensar em ti.

Estou quase. Começo então a ver o fim da estrada. Olho para trás e vejo os quilómetros que percorri, sempre por ti. Para alcançar-te, para puder finalmente realizar o nosso encontro.

Pisei a meta. A estrada terminou. E não te avisto. Sumiste para mais longe ainda.

Estou exausta! As feridas que o asfalto me proporcionou, impedem-me de continuar. Caio no chão. No fundo, eu já sabia. Como se tivesse tido uma premonição que me dizia que tu não existias. Que a tua existência era fruto da minha imaginação. Que em tempos senti as tuas mãos quentes apertarem as minhas. E não, não eram enrugadas. Eram macias, quentes, e fortes, e ancoravam as minhas. Ásperas, frias e completamente indefesas. A tua existência encontra-se perdida entre o meu passado e a minha imaginação.

Percebi então que percorro esta estrada todos os dias. Percebi que todos os dias os meus pés se queimam no asfalto por te quererem encontrar. Mas não te encontro. Sabes porquê? Porque estou apenas sentada no chão do meu quarto, dentro das minhas quatro paredes, onde tento -em vão-, descobrir as respostas para a tua ausência. As respostas para as perguntas sem resposta que existem no mundo. E é por isso que volto sempre ao chão do meu quarto. Porque é este mesmo chão que me ampara, que não me deixa passar dele. É ele que me mostra que esta é a minha realidade, e que a única coisa que posso fazer em relação ao horizonte, é apenas avistá-lo. Nunca alcançá-lo.

Daniela Teixeira

(7 de Janeiro de 2012)

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4 respostas a Lost.

  1. Patrícia diz:

    Este é, sem dúvida, um dos teus melhores textos que já li 🙂
    Embora já o tivesse lido há uns tempos, nunca me pareceu tão bonito como agora.

    • Muito obrigado 🙂 não é o meu preferido, mas por acaso acho que as pessoas têm sempre preferências muito divergentes no que toca aos meus textos. Sim, ele já não é de agora, é de Janeiro. Julguei que já o tinha publicado aqui, mas afinal não. E decidi postá-lo. É engraçado como passado algum tempo existem textos que deixam de fazer sentido. Coisas da vida..

  2. marianavidal diz:

    concordo com o comentário acima. este é um dos melhores textos que li no teu blog, parabéns 😀

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