As Três Vidas, João Tordo

Sinceramente, muito antes de ter começado a ler este livro, e muito antes de o ter recebido após um concurso que venci, que não senti entusiasmo. Não é que não confiasse no bom gosto do meu caríssimo colega Ruben Martins, que é um fã incondicional do João Tordo, mas tendo eu um gosto muito específico no que toca a livros, nunca pensei que me viesse a surpreender do modo que acabou por me surpreender. Quando dei por mim, já o tinha acabado. Li-o em cerca de dois dias. Sabem aquela sensação que temos quando acabamos um livro? Aquela sensação um tanto de tristeza por o livro já ter terminado? A sensação de saudade que fica? Não a tive. É um livro tão bem estruturado, que chegamos ao fim e percebemos que de facto não havia mais nada para contar. Não havia mais nada que se pudesse suceder ao fim. Exactamente por isso, por ser o fim. Dei por mim a ler capítulos e capítulos por dia, tal era a curiosidade que sentia. É um livro de mistérios. E vamos conseguindo desvendá-los á medida que lemos. João Tordo surpreendeu-me muito positivamente. Uma escrita bastante acessível, que deixa algumas questões para nós próprios. Ainda dentro desta mesma intriga, existe referência a dois livros que li – Metamorfose, Franz Kafka e 1984, George Orwell – o que me fez apreciar ainda mais a obra. É interessante perceber que obras tão complexas como estas duas que acabei de referir, se possam relacionar por completo com a história presente em As Três Vidas. Claro que para compreenderem a obra não necessitam de ter lido estas duas a que ela se refere. Simplesmente, para mim, foi compensador tê-las lido. Fez todo o sentido. Interligam-se de uma maneira extraordinária. Contudo, e porque não me dou por satisfeita, vou ler a obra O Bom Inverno e comprovar se de facto estamos perante um autor conceitado neste novo mundo da Literatura que se começa a formar.

Algumas das minhas passagens preferidas:

«O mais importante é libertar-me dos fantasmas, pois acarreto as sombras de todas as coisas a que não tive coragem para colocar um fim.»

«(…) E se o passado é alterável, então somos donos do presente e do futuro. Não basta, como o Partido faz em 1984, reeditar todas as notícias que já foram publicadas e mudar-lhes  o conteúdo, manipulando a informação; ou seja, não basta afirmar que dois e dois são cinco – é preciso fazer acreditar que dois e dois são cinco. A crença tem de ser alterada a partir de dentro.» Página 112

«Mas, se leste A Metamorfose com atenção, poderás compreender melhor o processo de que te estou a falar. A modificação das nossas crenças não é progressiva nem pode ser ensinada, apenas induzida: acontece num momento de clarividência e implica uma passagem por um instante durante o qual aceitamos a monstruosidade do nosso ser.» Página 112 e 113.

«Foi nestas observações que compreendi a verdadeira essência do funambulismo e do espectáculo: a possibilidade do fracasso era a receita para o sucesso. Quanto mais vezes o andarilho na corda bamba ameaçasse a queda, desiquilibrando-se, deixando cair prepositadamente um dos pés ou fingindo um abanão violento, mais empatia o espectador sentia por ele. A perfeição não era perfeita, por assim dizer; a perfeição era andar no limite do imperfeito, e essa, sim, era a autêntica arte.» Página 255

«Mais tarde, pensei se haveria, na verdade, alguma espécie de estranho engenho dentro da cabeça de um homem que o impedisse, a partir de certa altura em que já nada espera, quando aprendeu a aceitar a derrota, de conseguir reconhecer aquilo sem que lhe parecera, em tempos, que não podia viver. Ansiamos por esse momento de felicidade; ele surge como uma queda de água no meio de um deserto; e, de repente, não acreditamos nele, por estarmos tão acostumados à sua irrevogável ausência.» Páginas 290 e 291

«Por vezes, acontece àqueles que procuram esquecer uma fragmentação involuntária da memória, dissociando nomes de rostos e o sono da vigília, de tal maneira que, ao final de uma longa temporada sob o jugo desta espécie de silêncio, deixamos de ter certezas da fiabilidade dos nossos relatos.» Página 317

« A terceira vida começa hoje, e entro nela procurando aceitar a que ficará para trás. Se eu fosse um homem diferente, com mais imaginação, talvez pudesse acreditar – e fazer-vos acreditar – que os mistérios que perpassaram esta narrativa irão, um dia, encontrar a sua resposta; estou convencido, contudo, de que muitas coisas permanecem eternamente veladas e, com o passar do tempo, aprendi a viver com esta resignação. Por vezes, claro, é impossível evitar os enigmas que me atormentam e dou por mim a falar sózinho, murmurando com as paredes, perguntando-me pelos rostos invisíveis que atravessaram a minha vida como clarões, querendo saber, ansiando saber; e , ao desejar sarar as minhas feridas com a lógica absurda deste mundo que, a cada hora que passa, me parece mais distante, zombando dos espirítos que ousam desafiá-lo, compreendo a inutilidade desta empreitada.» Página 400

Lamento pelo meu exagero na quantidade de passagens, mas não consegui fazer uma selecção mais reduzida.

Daniela Teixeira

 

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